quinta-feira, 15 de março de 2012

embora

Não há centímetro de pele que esteja enxuto debaixo daquela chuva inesperada. A espera era infinita, o tempo brincava de estancar. Na verdade a espera de tantos anos longos a fizera chegar ali horas antes do esperado. A inquietude lhe tomou desde quando a carta chegou anunciando a volta dele-amado. Tantas folhas caíram desde que ele-amado foi embora, sem dizer o que ou pra onde. Tantos amores findaram após passarem pelo seu corpo.
Ela tem pés tão bonitos.
O céu estava em escuro, era a visão do horizonte da estação. Chegavam trens dali, de acolá, de mais além. Partiam e desembarcavam tantos incontáveis rostos. Adeus e bem-vindos. Ela sorriu imaginando
Tudo é úmido: a espera, seu coração. O sol surgiu tímido pelo fim de tarde que já era. Entre as nuvens, os raios secam a passagem da chuva. Seus cabelos encharcados permanecem em pingo. É como o contar das horas – cada pingo. Em conta-gotas.
De longe não se vê mais trens. E já são horas. Seus olhos estão agoniados mirando o horizonte. Seu coração anseia. É como esperar a porta abrir de chegada ou o telefone tocar. Ela ensaia novamente um sorriso de incontável felicidade. E o horizonte não muda.
E já foram horas.
Ela perde o sorriso a cada passo do ponteiro do relógio que agora parece ser carrossel. Logo a noite adentra. Logo a noite amadurece. O horizonte agora é impossível. E sua esperança apaga-se juntos as luzes da estação.

2 comentários:

  1. Ai que fim triste.
    Adorei. Uma delícia. Gosto dos cantos.

    Um beijo.

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  2. Bonito demais. Um nó plantado na garganta de quem sente.

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vírgula