terça-feira, 20 de dezembro de 2011

cantada

A chuva sobre a cidade não dispersava bem o calor. No quarto, o homem ofegante e a mulher completa sobre a cama olhavam o teto – as telhas já envelhecidas. Ela sustentava um sorriso desenhado e ele, ele de olhos fechados, ele meio excitado, lembrava todo o sexo feito – o corpo dela sobre o seu. Eles suados, melados do prazer carnal e enfim, o suspiro dela.
    Ele se aproximou da mulher e tocou seu peito nu, onde o coração ainda acelerado; deitou a cabeça sobre a mulher amada. Ela o abraçou, como se o protegesse: o homem seu.
    As paredes azuis de mar suavizavam todo o quarto que era enfeitado por flores que nem se conta.
    Ele sussurrou-lhe que a amava e ela sorriu encantadamente e deslizou sua mão pelo rosto dele de barba por fazer, de cabelos cacheados e de olhar amado. Ele apertou-se mais forte ao corpo dela como se quisesse entrar na sua pele. Ele queria entrar na mulher, e percorrer seu corpo inteiro. Ele a queria para si, ser dela, seu interior.
    Entrelaçaram as pernas para que não houvesse a separação dos corpos. O cafuné dela no homem. E o chamego dele no peito dela sobre o lençol listrado.
   Ele levantou-se e a puxou para o banheiro. Ela rindo tempestiva – que nunca mais tivera sorrisos tão felizes assim – ela feliz o acompanhou se entregando a mão que lhe puxava forte.
    Imprensados na parede enquanto a água quente caia sobre o beijo intenso e as mãos dele segurando a cabeça dela como nos filmes de amor água-com-açúcar. Mesmo o calor da água, o calor dos corpos, o calor da noite. Mesmo a mulher estranha, mesmo o homem cativo.
   Ele a enxugou calmamente, como se a pele da mulher fosse frágil. Ela olhava pelo espelho o rosto feliz do homem que observava suas costas nuas. Ela que sentia sobre a toalha as mãos quentes dele. A mulher feliz.
   Ele vestiu as calças, a camisa xadrez, os sapatos vermelhos e a beijou. Ela atacando o vestido de chita: o beijou. Que as horas nem importavam mais.
  Como não importava a manga madura apodrecendo no pé, o leite derramado no fogão. Como não importava a segunda-feira de amanhã, as ruas congestionadas e a canção ruim no rádio. Como não importava que eles não soubessem o nome um do outro, porque foi amor num único olhar, naquela única noite.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

entreaberta

Na noite seca: perfurou-lhe o peito qual faca amolada retalhando-o como de gente que não é completa.
    Ela cheirava a morango de seu perfume barato e andava descalça. Os sapatos nas mãos, resultado de pés cansados de manter-se alta aos olhos e amores dos outros. Um calor imensurável lhe fazia suar.
    A noite anterior lhe deixou marcas: as costas brancas arranhadas, as coxas, o pescoço marcado pela ânsia descontrolada de uma boca. A noite anterior lhe trouxe marcas: seu coração ferido estava certo de amor.
    Certeza indecisa a de quem nem dormiu. Enquanto o café fervia, olhava a janela e as horas eram quase cinco. O sol nascia inquieto incomodando-a – como dor – por ser ela gente da noite. Ela que amava a escuridão quebrada pelas luzes dos postes formando sombras duvidosas e incertas. Chegou em casa depois de cruzar meia cidade a pé, depois de ser consumida dolorosamente, depois dos copos de vodka, depois de sonhar com felicidade.
    Quando saiu de casa em corpo de menina, Helena tinha a pele ainda mais branca. Parecia pura de qualquer sentimento – doloroso ou viciante. Mas seu coração – que não está a olhos nus – seu coração nunca foi puro. Mas sempre foi fortaleza inatingível para quem a queria íntima. Nunca deixou que a conhecessem como nem ela se conhecia.
    Helena de cabelos ruivos e olhos esguios, que mãos eram decididas. Helena que nunca havia amado – nem nunca houve sequer vestígio disso – sabia decididamente que agora estava amando. Ela sabia mais do que sempre queria.
    Em sua mão, o número do telefone de quem a amou violentamente no banheiro do bar esperava em rabisco num papel amarelo. O mundo parecia pulsar.
    Amarelos eram também seus dentes.
    Nos olhos que fitavam as janelas dos prédios se abrindo, abrigava-se uma indecisão de mulher. Helena que as mãos eram trêmulas.
    Quando a sua mão largou o papel do segundo andar, o cheiro de café fervendo quebrou o silêncio da casa. Helena caminhou leve deslizando pelo corredor até o quarto. Quem de certo ama perceberia nos seus pés o peso da vida. A porta do quarto entreaberta e o abajur ainda aceso, e o homem que lhe amava nu entre o lençol branco.
    A cidade acordava como se acorda por espanto.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

pela janela todo o mar

Seja agora fim de tarde, o pôr-do-sol que nascia. Ela ainda esperava na janela. Seus olhos que acompanhavam o mar, as ondas no vem e trás e leva, e a sua cor que muda com a cor do mar. Tanto tempo se passou, de tanto amor que se foi. Às vezes seus olhos se cansavam do horizonte e penetravam qual raio X nas águas.
Ela já era a construção da janela (tijolo, cimento, madeira), de estética, de costume. Sua ausência era a destruição de um dia, um insignificado. Detrás da cortina de renda os seus olhos repousam ou protegem-se. Seja vento norte ou oeste, dançam a cortina e seus poucos cabelos brancos de alguns vinte e poucos anos. Uma dança em frente aos seus olhos, um convite ou acaso. O mesmo vento que parece trazer e levar o mar – pequeno.
Mas ela sabe que o mar é vida-viva própria, que ele é senhor de si. Não há vento que o guie, que o mande ou o desfaça. E que quando se arreta não há terra firme, ou marítimo. Marulho evocador de alma em arrebentação.
Foi assim que aquele homem quebrou-se em ondas. Um mar em arretamento, um homem sem estar. Ele jogou-se as ondas, adentrou o mar. Ele inteiro ao mar, o mar dentro dele, ele dentro do mar, as águas em turbilhão. Sua pele salgada, seus pulmões cheios d’água, seu prazer incontestável. Sobraram só as roupas, molhadas e salgadas, para os olhos de quem assistia.
Os olhos de mulher – os olhos da mulher – viam imóveis as águas devorarem todo o homem. Cuspiram suas roupas e impurezas, as quais ela catou. As roupas foram enterradas como corpo que foi comido. As impurezas foram comidas como restos indissolúveis.
Ela ainda espera na janela alguma coisa só sua, que ninguém ou outrem possa imaginar. Dizem que o mar é sua paixão, qual homem devorado adentrou e foi adentrado. Dizem outros que é a espera da carne resto do que o mar comeu. Ou seus olhos se perderam na marola. Ou ela mesma não quer voltar.

sábado, 10 de dezembro de 2011

quebrante

Era novembro e algo no coração.
No coração de quem se não fosse o dele. No novembro qual se não fosse esse. Por ser primavera, novembro se torna em flor mais singelo.
Quanto amor ainda existe nesses olhos que permeiam a escuridão-meia do quarto. Já são tantas as horas da noite. Sobre seu peito repousa o homem que o ama; a barba e seus pelos, a boca e sua pele. Sobre ele inteiro repousa uns sonhos amarelos.
A orquídea na janela entreaberta roxea todo o quarto iluminado pelo abajur. Mas o cheiro é de livros de poesias, de poetas – de coração. Tudo se respira em espaços minúsculos: seu pulmão é um vácuo que se inebria facilmente. Ou as cores da falsa Frida Kahlo. As paredes rebocadas recentemente, outras roupas espalhadas pelo chão. Seu coração sustenta a batida. Sobre seu coração: a contração.
Se a folha da orquídea cair no chão será de um silêncio tão íntimo que será mais seu do que da própria flor. Se a pétala da orquídea cair, será de uma lágrima.
Ele se quebra em devaneios, contorce a coluna, relaxa o contraído e solta todo o físico. O corpo sobre si é solto agora, por instantes. Se há fuga, ele não percebe. Mas quando retoma seu contorno em volta ao corpo do que fora bem-amado, já não é amor inteiro o que o suor da pele alheia exala.
Resta-lhe seu próprio corpo (sua própria pele úmida), o anti-amor, fechar seus olhos, a cor escura da noite.

- que nasceu em novembro, mas aflorou em seguinte.

domingo, 20 de novembro de 2011

as linhas dela

Ela já não quer mais essa casa vazia, paredes brancas rabiscadas de tantas palavras soltas, sem nexo, sem hora. Nada se forma, parece não haver amor no que escreve. Tudo solto, aberto e insípido. Ela coberta de casa – palavras mortas.
Essas horas tudo deveria estar diferente, mesmo a parede principal estando intacta. A inatividade de tudo lhe sufoca. O tudo que é o mesmo tudo desde que vive. Caminha nua pela casa, entre pés e pontapés. Dentro: raiva nas entrelinhas de seu sangue: ferve!
Ela quer, ela – em impulso – se fere, sangra as palavras e de dor. De dor tudo vive ou reagi. Mas se tudo fosse vivo ela não estaria tão morta. As palavras não viveram para lhe viver, mas para lhe sufocar.
Oh, mulher! Foste infiel a algum sentimento ou ao tempo? Não foi o tempo que não correu, foram teus pés sujos. O tempo te engolirá como a essa sua casa, ou as palavras te comerão agora. Inundam-te a pele e estás encharcada. Não agüentas o peso: elas te cansam, tu te cansas e o chão parece tão lar.
Ela estendida no chão – o frio. Rasgou os poemas versados. Até amanhecer.
Quando de um novo dia, ela não era mais poeta.
E o mundo era novamente poético.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

até o tempo esquece

Ele volta a casa destruída, já abandonada. Paredes manchadas, cacos de vidro, tudo em escombro, livros em folhas rasgadas. Tudo que sustentou aquela casa agora jaz no chão batido, sem alarde. Tudo foi deixado para trás, qual a casca – exoesqueleto – de um coração antigo ferido. O homem fuça, caça, cheira o passado, o deixado, em busca de vestígios de algo vivo-colorido em amor. Mas não encontrará nada em aberto, pois todo resquício foi levado em cicatriz na carne, coisa profunda que penetra os músculos do coração e não só a pele.
Houve aquele que viu a casa ruir sobre seus pés, vidros lhe cortarem, seu sangue-amor derramado ao chão agora destroço – nada restou inteiro. Há quem morra e renasça com ruínas em construção.
Esse homem não deveria adentrar essa casa e revirar o já acabado e destruído. Não deveria riscar seu nome nas paredes que mesmo após tudo continuam brancas – brancas. Ele revira o empoeirado, as fotos, as palavras, as lembranças retorcidas. Seus pés sobre o inacabado e descolorido.
E vai embora, sem quem o visse, sem ser mais alguém.
para Otávio

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

perdida

A mulher que diz que não ama, apenas ama em silêncio, quieta. Coisa que é guardada em escuridão que nem os olhos a entregam. Amada, a mulher é além do próprio mundo, da fumaça tragada, da bebida que já é sangue.
    Abandonada, a mulher perde-se própria, mas a pele ainda é inteira. Os olhos imutáveis alegremente falsos mantidos como escudo que só desaparece sobre cobertores.
    A mulher couraça estanca a vida e o sangue alcoólico, vencida pelo amor que ela escreve não sentir. O que há de vir: tantos outros homens sem saudação ou despedida – aberto é seu corpo. Outra mulher instantânea para o acaso saí de casa com braço forte preparada para a morte ou o amor – e a carne.
    Essa mulher noturna é a mesma mulher que encontra o dia, mas não é aquela que se encolhe sobre o próprio corpo na solidão de toda noite.
para Cristiano

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

por causa de você

As flores que não vivem, desenfeitam a janela. A cor amarela em contraste com a poeira e o pó do que algum dia. Foi ele ir embora que tudo ficou assim. Foi ele sair que tudo desandou, na casa que era nossa, no meu corpo que era dele, nas horas que eram constantes.
    O costume que se fez nesse corpo e nessa casa. Do cotidiano do beijo de café e da mão escorregando por minha pele e pelos e o café acostumado a ferver. Até o relógio.
    Não que as estrelas do céu, mas da janela de flores desenfeitadas há uma desorganização dos corpos brilhantes. Não que as estrelas do céu, porque o mundo não era acostumado a você e sim eu, que sabia de tua cor quando te espreguiçavas. Eu aqui a lamentar às paredes. Só quando tu passar pela frente dessa ainda nossa casa é que as flores desenfeitantes te contarão.
    Não lavei o lençol para ainda ter teu cheiro.
    E quando as flores desenfeitáveis te fizerem entrar de novo em nossa casa: invada-a, meu bem. Tranque as saídas, as entradas, as feridas. Que nenhum mundo mal te levará outra vez. Abraçar-te-ei simplesmente, beijar-te-ei simplesmente. Sem palavras do passado, sem lágrimas pelos olhos. Como se o mundo não tivesse amanhecido ou anoitecido. Como se não houvesse o que foi tristeza – adentre-me.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

desse espaço em branco

O que escrevo quase não vivo, poucas linhas são de respirar. Pouco tenho do que é amor, pouco escrevo do que é amor, ou se tive amor padece o escrever pela falta. Como Tom Jobim um dia disse “que viver sem tem amor não é viver”, declina o coração amargo e doce que hora guardado não sabe no que crê. Passeia os olhos por dentro à procura. Busca armado de tantas naus como mar que não é dentro. Puras vísceras anatômicas sem poesia, qual mar deveria ser todo o sangue, todos os músculos, tecidos e ligamentos. Puras vísceras fisiológicas.

sábado, 6 de agosto de 2011

o centauro e o leão

Ele o amava por muito. Era coisa platônica, de príncipe encantado. Sonhava em encontrá-lo e dividir a casa, a cama, o corpo, os sonhos. Via-se atravessando tanto chão para poder estar perto dele, mesmo ele sendo mais ilusão que real. Só o conhecia pelas fotos que recebia nas cartas doces que trocavam ou pela voz quando naquele seu aniversário recebeu uma ligação e a sua voz tímida encontrou a voz quente dele.
    Era tanto amor.
   Por vezes ele pensou que aquele era o homem de sua vida, aquele com quem se atravessa a vida toda, uma vida toda, até as rugas e o caixão e o pó. Ele tanto acreditou para si mesmo. E mesmo quando estava ferido nunca desacreditou.
   Por vezes ele foi magoado e mesmo ferido pediu desculpas pelo tanto amor. E quando magoou também pediu desculpas pelo tanto amor. Tanto amor o fazia frágil.
    Por vezes ele chorou como agora. Até cansar.
    E frágil ele se quebrava.
    Mas qual o quê ele desacreditou: nesses sonhos, ou ilusões, nesse amor. Como se desacreditar numa mentira. Como se desacredita um dia nos contos de fada – como quem perde a esperança.
    Era agosto começando.
ao seu aniversário, Roberto.

terça-feira, 26 de julho de 2011

segredos de coração (histórias poucas) nº4

Como a tarde estava agradável naquele dia. Não havia sinais de nuvens em muitos quilômetros. As pessoas pareciam sorrir mais. Tudo parecia mais vivo. Camila tomava um café no bar de sempre. Esperava encontrar alguns amigos. Conversar. Sabe-se lá. Sua felicidade era a de sempre. Como ela mesma também era a de sempre: a mesma. Apenas o café não era o de sempre. Nunca bebia café, mas havia prometido parar de beber vodka. Então... então.
Observava atentamente a todos que entravam e saíam. Um menino entrou e ofereceu-lhe uma rosa. Era de um admirador secreto, disse ele. Ela se sentiu feliz.
- Quem é ele?
Mas o menino fingiu que não ouviu e saiu para vender nas outras mesas as rosas que ainda lhe restavam.
Quem era que lhe admirava? Quem, se ninguém nunca havia lhe admirado. Seus olhos rodavam a procurar pelo bar alguém que a estivesse observando. Por essas horas não havia muita gente ali. Mas ninguém a olhava.
Passou alguns minutos procurando. Seu café esfriava e a rosa ainda estava na sua mão.
Pediu uma dose de vodca ao garçom. E bebeu num gole só. Deixou a rosa e o dinheiro na mesa e saiu.
A rosa era apenas para ela amar.

sábado, 16 de julho de 2011

segredos de coração (histórias poucas) nº3

Liam Machado. Eram apaixonados. Por Machado. E um pelo outro.
Era um final de domingo. Quase sempre marcavam para lerem juntos. Nunca liam com outras pessoas ou sozinhos. Era meio que um acordo entrelinhas.
Eram apaixonados. Mas nunca disseram nada. Nem para eles mesmos. Nem para o silêncio. Um tomava café. O outro bocejava. Era tarde já. O tempo passava sem que percebessem. Desligavam-se do mundo sempre enquanto liam. Às vezes suas mãos se tocavam quando iam juntos virar a página e então riam sem graça. Era um pequeno encontro.
Era tarde já. Decidiram ler só mais uma página. Continuariam por outro dia. E de repente, como de impulso, um jogou sua boca na boca do outro. Rápido. E tão demorado. Até que se separaram e voltaram a ler. Não se olharam mais. Ali acabava algo, mas eles não sabiam. Acabava um mistério.
Por fim, passaram a não se ver mais depois desse dia. Não liam mais Machado. Não havia mais mistério.
Os domingos eram, agora, apenas domingos.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

segredos de coração (histórias poucas) nº2

- Ei, tinha que te contar um segredo.
- Qual segredo?
- Um meu.
- Conte-me.
- Calma, não tenho tanta coragem.
- Rápido, por favor.
- Por quê? Está com pressa?
- Um pouco.
- E está curiosa para saber o que tenho a dizer?
- Um pouco. Um pouco menos do que estou com pressa.
- Sei.
- Então!?
- Então?
- Qual o segredo?
- Ah, sim. É que eu ainda te amo.
- Pois eu não. Não mais.
- Mas eu ainda sei a cor de seus olhos.

O ônibus chegou. Ela subiu. E ele ficou com a cor dos olhos dela como sabor. Era vontade de mais.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

segredos de coração (histórias poucas) nº1

As folhas – poucas – voavam com o vento forte que vinha. Fazia frio. Pouco. Eram seis horas e alguns vagalumes tentavam clarear a noite.
Eles dançavam.
Era o frio. O frio que era pouco, mas era.
Poucas sombras tinham se formado. Só algumas árvores. Outras não se viam. Ainda eram seis horas. Só latir de cães. E porque ver algo que é o mesmo de dia? Mas as árvores eram vistas. Mas elas não eram as mesmas. Criavam um suspense em suas folhas.
Havia chocolate-quente. E um gato. Era o que havia de mais perto. Na verdade não era chocolate. Era café. Porque gostava de fumar. De vez em quando.
Bebia café, então.
Mas não fumava. Não agora.
E o gato era pardo. Ou era branco e as sombras das árvores o deixaram pardo, assim.
Mas nada era perfeito. Nada mais.
E como uma falta de ar, faltava-lhe algo. E cada vez era menor.
- Eu te amo, disse ele.
Alguém se levantou e tremeu. Fazia frio. Era pouco. Talvez fosse melhor ir para cama.
Aos poucos amanhecer.
Não era justo que o sol iluminasse seu rosto. Não era justo deixar sua tristeza ser iluminada.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

desata

Não se reduz uma vida a “respirar”, porque se não se senti o mundo não se é vivo. Não se reduz um amor a “namorar”, pois se não se sente não há nada. Não se reduz o que é intimo ao que é profundo, pois o mundo é cruel demais. Diferente de simplicidade, isso é menosprezo. A redução insignificante de um coração, de uma cor. Esses homens de mundo, imundos, cadê os olhos que prometeram (?).
   Às vezes, quando o mundo parece perdido é porque tudo se perdeu mesmo. O laço desatado voa pelo e com o vento.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

o príncipe e o moinho

O príncipe com seu coração armado continuou seguindo pela estrada perdida. Livrou-se da coroa que lhe pesava e das roupas cheias e coloridas. Quem por ele passava ainda o reconhecia como príncipe pelo seu sorriso tímido e muito que lhe fechava os olhos calmos. Ele sabia que a estrada era perdida, mas era guiado pelo coração e era isso que lhe fazia ser príncipe.
   Até a estrada perdida se perdia na própria poeira, e o príncipe caminhando perdia o seu sorriso a cada grão de areia. A poeira tomou-lhe os olhos, qual amor tomou-lhe um dia; cobriu-lhe os cabelos e as roupas já monocromáticas – deserto. A estrada agora era quase deserta, poucas vivas-almas passavam por ali.
    A poeira ainda mais densa comeu-lhe os olhos.
    E quem passava por lá, avistava o príncipe seguindo pela beira da estrada. Mas ninguém o diria príncipe mais, era agora o louco que seguia um destino sonhado pela estrada perdida. O que lhe fazia príncipe por fora não existia mais e só por dentro lhe sobrou o príncipe que um dia fora. Precisava-se adentrar sua pele de sol para perceber-lhe príncipe ainda. Mas ninguém tinha coragem sequer de olhar em seus olhos, dito esse homem louco, quanto mais tocar-lhe.
    Só ele sabe o príncipe que foi.

domingo, 19 de junho de 2011

quase moinho

O que ela podia fazer se a amava. Deixou-a entrar novamente em sua casa. As mesmas cores na parede, as cortinas ainda empoeiradas, o mesmo vinho de toda sexta. A casa física e a rotina.
   O que ela podia fazer se a queria. Deixou-a entrar novamente em seu corpo. Corpo quase inteiro igual, desde os olhos penetrantes até as mãos doces; só o coração, agora ferido, não era o mesmo. Desejava novamente seu corpo entrelaçado nos pelos dela, sua boca entre as coxas.
    O que ela podia fazer? Virar as costas sem mais, como um dia fizeram a ela? O que ela podia fazer senão aceitá-la. Aceitou-a pelo amor que queria. Mas, não sabia, quando chegava a noite, se os pensamentos de sua amada eram para ela. Como queria saber se nos sonhos dela não viajam terceiras pessoas. O que ela podia fazer senão tentar sufocar essas incertezas.
    O que ela podia fazer se doía estar só.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

qual moinho

Seu coração aflito não o deixava viver. O consome em paz e amor e dor. O coração agitado descompassado, desconstruído, desarmado de sorrisos e vingança. Ele só quer a paz que perdeu naquela noite, cansado.
    Até que aquele desconhecido parado no ponto do ônibus o abraçou e o beijou no rosto, sem nem mesmo saber do cansaço de viver que levava aquele coração bradicárdico. O homem desconhecido lhe acolheu – a necessidade de um braço-reconforto – deu-lhe uma esperança de que tudo vai ficar bem, mesmo que por aquele instante.
    E nesse instante ele acreditou em todo aquele beijo, até que os olhos se abrira: ele queria tanto perder a realidade que os olhos veem. 

quinta-feira, 16 de junho de 2011

segundo moinho

Eles não podiam fingir que não se amavam mais, mas não podiam disfarçar que algo havia acontecido. O lençol manchado de esquecimento. Não foi desamor.
    Quando ele chegou em casa encontrou João em braços que não eram seus. Tantas perguntas cabíveis ali (de porque, de quem, de como) e a única coisa que queria era conseguir apagar aquela imagem da cabeça: o corpo do homem que amava entregue a um estranho qualquer, talvez, nem merecedor de um beijo de piedade.
    Mas esquecer não é fácil, se tal fosse, ele se esqueceria de si mesmo, porque nele há o sentimento que o atormenta quando não é satisfeito. Ele se esqueceria desse sentimento suplicante por respirar. E ao cair na cama ele havia esquecido como dormir.
    Ele quis tanto perder seus olhos.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

um moinho

Ela não merecia carregar essa dor; exaurida no chão, tenta se levantar. Ela tentava ter um coração tão bom, merecia instante melhor: deitar em lençóis secos de lágrimas, ela merecia deitar e adormecer. Adormecer porque ama, adormecer para sempre, porque a vida dela sempre aparece com um jeito de viver, cheio de frestas que a farão cair de novo no chão frio. Ela não merece lutar para se reerguer e ser derrubada covardemente de novo.
    Ela parece que perdeu os olhos.

sábado, 11 de junho de 2011

inquietamente

Toda dor chorada como há tempos não se sentia. Adormece por esses instantes para amenizá-la. Era o desejo por essa vida ainda não vivida, a constante da solidão.
     Inquietamente se morre de amor.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

tua casa vazia

Quem quer sol num dia daqueles onde as coisas pareciam querer reviver. Foi quando ela entrou aberta na casa que um dia já havia sido sua. Pouca coisa havia mudado, só as fotografias que não permaneciam as mesmas para evitar lembranças desnecessárias. Ela entrou acanhada, silenciosa, com um sorriso tímido enquanto ele não sabia para onde olhar.
    Sentaram-se na mesa branca no quintal florido pelas rosas. Ofereceu-lhe café recém passado e olho-a indecifrável. Silêncio de dois. Cada qual penetrava seu olhar nos olhos do outro, perdidos no instante e nas lembranças.
    E nas lembranças, foi quase uma premonição quando ele gritou que ela um dia voltaria implorando pelo seu amor novamente. Os gritos dele enquanto caía no chão sem forças agarrando-se a parede em meio ao silêncio dela. Cena que ninguém imaginaria, nem ele mesmo. Não era de explosões ou arroubos, mas todo aquele momento foi demais para ele. Ela saindo indiferente.
   E lá estava ela: desiludida, desamparada, desarmada, destruída. Coração apertado de amor contido esperando o perdão. Mas ele não era mais o mesmo, as coisas mudam. Tanto sofrimento na casa vazia, escura, triste, na casa construída para dois, no coração decorado para dois. As coisas mudam; “a gente muda”. O amor passa, a dor vai se desmanchando. As coisas mudam.
   Ela segurou a mão dele imóvel sobre a mesa. Ele ainda perdido em lembranças. Ela perdida nas palavras – o que dizer? Não disse nada. Apenas uma lágrima solitária. E sua mão segurou na dele com tanta força, como se sentisse tanta dor, que o fez retornar ao momento. Ele desvencilhou a mão implorante e acariciou-lhe o rosto – sem amor.
    Naquela noite ela dormiu na cama do quarto vazio depois do jantar e do banho que a fizeram parecer mais com a mulher que um dia ocupou aquela casa. Ele a abrigou e deu-lhe comida, mas o amor que ela tanto queria não podia mais ser dado. Aquele amor só existia nela, um restante de amor.

sábado, 4 de junho de 2011

sob a pele

Dona Orelia Martins em "Sertão Sem Fim" de Araquém Alcântara (2010)
As rugas não são apenas lembranças do tempo, são vestígios de dor, de sofrimento, marcas de desilusões guardadas e engolidas e digeridas em silêncio. Do rosto ao coração. Os olhos envoltos, as mãos denunciam: trêmulas. Menos fortes. As rugas e a pele flácida.
    É o fim da beleza para alguns ou o início de outra beleza para uns. As rugas são a beleza da velhice, pois quem não é belo assim é feio esticado, reconstruído, mascarado. É a experiência às vezes cega, às vezes sabedora. É o cansaço de viver. Um sonho não realizado, o amor abandonado pelo beijo não roubado deixado para trás, os tempos difíceis. A pouca visão de olhos mais secos. 
    O tempo que às vezes ajuda a deteriorar a mente que semana passada era sã e hoje impede de levantar da cama.
    São os cabelos brancos tão vivos sob o sol.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

em maio

Deixe que o mundo gire num meio dia, ao sol esquentando as paredes. Um dia pra tanta pouca coisa. Para tanto pouco amor sentido, tanto pouco amor retribuído. Tão pouca cor de sorriso. Mais frio é o silêncio do mundo. O silêncio indiferente da incerteza.
    Acho que perdi os pontos, o fio do tricô, perdi o tom. Ou acho que alguém os roubou de mim. A camisa desfiada do fio solto que não pôde ser costurado até o final. A camisa vai se desfazendo nas horas quietas. Ela sucumbe ao tempo. A camisa que visto. Eu fico nu. Eu fico aberto. Um alarde em meu peito.
    A incerteza da indiferença.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

a mulher carpideira

A rua era tomada por uma enchente de gente; o sábado, dia de feira, os carros, os bichos, as gentes no centro da cidade. A prefeitura de paredes azuis tinha trêmula a sua bandeira no topo da pequena torre de uns dez metros de altura, a qual se via de lá de longe da entrada da cidade, visto que não havia prédios para atrapalhar o horizonte. A enchente de gente descia a ladeira da rua principal. Os homens que olhavam do comércio tiravam seus chapéus: os cabelos grisalhos ao sol da manhã. As mulheres cochichavam sobre as roupas de quem seguia o cortejo fúnebre. As mães reclamavam pros filhos se aquietarem. E a enchente de gente passava pela praça da igreja de Nossa Senhora do Coração, a padroeira da cidade.
   A empregada carregava a coroa de flores toda multicor de rosas, margaridas, gardênias, violetas. As cantadeiras que iam à frente do caixão anunciavam o enterro em direção ao cemitério:
*“Uma incelença entrô no paraíso,
    uma incelença entrô no paraíso.
    Adeus irmão, adeus,
    até o dia do juízo.”
  
   Seu Antônio vinha dentro do caixão. O homem rico da cidade que mandava e desmandava em quem bem quisesse. Ele caiu no chão do armazém morto pelo mesmo coração que o vivia, depois de tomar o quartinho de aguardente de toda noite. A verdade é que ninguém gostava bem de Seu Antônio e todos que acompanhavam o enterro o faziam por pura formalidade. Nem a sua filha lhe tinha muito carinho.
    Mas na condição de única parente, foi ela quem cuidou de tudo que se precisava. Comprou o caixão de madeira – madeira mais forte que as de muitas casas das redondezas. Comprou a coroa de flores mais ostentosa e colorida, comprou tudo o necessário para o velório e comprou as lágrimas da única pessoa que chorava no meio da enchente de gente. A carpideira – como era conhecida Dona Clarice  com seu vestido de renda preto, e o véu que lhe cobria parcialmente o rosto, louvava o homem carregado no caixão. Suas lágrimas na terra seca sob o sol forte nem umedeciam direito a pele já tão enrugada. Os gritos de falsa tristeza cobertos pela poeira que a multidão de pés levantava.
    Seu Agenor, marido de Dona Clarice, não ia mais aos enterros, mesmo que de gente conhecida, pois agora era o trabalho de sua mulher. Ali na cidade, quase ninguém mais chorava pela morte de alguém. A morte era coisa quase certa e a tristeza que se sentia já nascia conformada. Alguns dizem até que o calor é que evaporava as lágrimas antes mesmo delas saírem dos olhos. A única exceção era quando o enterro era de criança, quando se carregava o pequeno caixão de anjo, branquinho de nuvem: era coisa mais comovente.
    No fim do dia, Dona Clarice, já desfeita de seu papel de carpideira, chegou em casa pra preparar o café de Seu Agenor. Ele que descansava na rede em frente da casa esperando pelo jantar. Ela coava o café enquanto assistia à novela pela TV da sala um pouco virada em direção à cozinha, e o gato que se esfregava nas suas pernas.
    Por aqui, o sono sempre vinha cedo, as ruas ficavam silenciosas já pelo meio da noite, só alguns bares abertos ou umas rodas de fofocas nas portas.
    Depois do jantar, Dona Clarice se sentou no sofá pra ler seu livro de poesia e Seu Agenor foi dormir porque o sono já lhe pesava as pálpebras. Eram apenas eles dois naquela casa que foi dos pais de Dona Clarice, e onde ela nasceu e foi criada. Não tinham filhos. O único que tiveram morreu quando tinha quatro anos: a última vez que Dona Clarice chorou de tristeza. Ela entristeceu e emudeceu por um mês. O rosto de mulher jovem envelheceu tanto quanto os muitos prantos que chorou levando o filho para a cova.
    O dia amanhecia cedo. Dona Clarice acordava bem dizer junto ao sol ainda pálido. Preparou o café forte pra despertar, o cuscuz e o leite. Comeu e foi lavar as roupas. Varreu o quintal, aguou as plantas e quando os sinos da igreja anunciaram o primeiro chamado para a missa, ela entrou em casa para se arrumar. A missa de domingo era a única que ela ia, pois foi no domingo que seu filho morreu. Quando entrou na cozinha percebeu que a mesa estava intacta, do mesmo jeito que deixou. Seu Agenor não havia tomado café, nem comido nada. Estranhou o homem que se levantava cedo mesmo no dia que não trabalhava e comia como se tivesse dormido amarrado (“porque saco vazio não pára em pé”, era o que ele dizia). Nem o rádio que ficava noticiando as coisas das cidades vizinhas enquanto ele comia estava ligado. Dona Clarice foi até o quarto e Seu Agenor ainda estava na cama. Ela sabia que ele não é de dormir tanto. Ela sabia que ele não ia acordar mais.
    No quase fim da tarde daquele domingo o funeral de Seu Agenor descia a rua principal. O comércio estava fechado. Não houve a missa das seis da tarde, pois o padre seguia o cortejo. Diferente do dia anterior, quem acompanhava o caixão até o cemitério era por que tinha afeição. O caixão de madeira encardida era levado por uns amigos nos ombros. Não havia coroa de flores, só umas margaridas e uns cravos. As nuvens tapavam o sol, amenizando a longa caminhada. Ninguém chorava.
    Dona Clarice no seu vestido florido escuro ia ao lado do caixão, quieta. A mesma quietude do velório e de todo o percurso do enterro até ali. Só chorou quando, depois de passar uma hora abraçada ao corpo de Seu Agenor na cama, teve que se levantar para preparar o velório. Ali, ela não estava como carpideira e sim como mulher sofrida que prende a tristeza nos olhos.
    E ao longo do cortejo as cantadeiras entoavam:
**“- Uma excelência
    dizendo que a hora é hora.
    - Ajunta os carregadores
    que o corpo quer ir embora.
    - Duas excelências...”

*Autoria: Dorival Caymmi em “Suíte dos Pescadores”
**Autoria: João Cabral de Melo Neto em “Morte e Vida Severina” (1954-1955)

segunda-feira, 16 de maio de 2011

esquecer-se

Ele abriu os olhos depois de algum tempo. Sentado na cama de casal que havia comprado há pouco mais de um mês, olhava o guarda-roupa escancarado e as gavetas jogadas pelo chão: tudo vazio. Nem roupas, nem sapatos, nem os filmes e nem os livros de Paulo estavam lá. Nem o próprio Paulo estava mais. Paulo sumiu no meio da noite – ou bem ao amanhecer – e levou tudo que era seu. Deixou apenas o seu cheiro impregnado no lençol e o amor no coração de Antônio.
    As coisas entre eles não andavam bem, mas essa não era a primeira vez. Como qualquer gente eles tinham suas não-felicidades, seus ataques de ciúmes, suas crises existenciais. Mas não conseguiam passar mais que um dia brigados e corriam um para o outro pedindo desculpas enjoativamente e se amavam ali mesmo onde estivessem.
    Antônio, com seu pijama (que não passava de uma cueca), se aquecia com o lençol, e ainda olhando o guarda-roupa vazio custava a acreditar. Seria ele tão insignificante que não merecia uma pouca explicação, um adeus banal e medíocre?
    Pensar parecia inútil, simplesmente porque pensar não levaria a canto nenhum, simplesmente porque não havia aonde chegar. Acendeu o cigarro de desjejum e bebeu o café frio e aguado deixado no criado-mudo na noite passada.  A cortina amarela deixava o sol entrar tranqüilo pelo quarto. Era hora de esquecer-se de amar.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

mudança

“Eu não sou mais 
quem você deixou, amor”
(Adriana Calconhotto)
Eu não carrego mais o peso do passado, não choro mais pelo que acabou: isso tudo findou. Nenhum peso nas costas, olhos vazios de lágrimas. O tempo realmente cuida de tudo, ameniza, cicatriza.
    Mas é difícil crer nisso quando se dói, quando se sangra. É coisa de não se acreditar, de ser cético e às vezes desesperançoso. Mas o tempo não é movido a sentimentos, a esperança ou qualquer coisa humana. (A percepção de tempo pode até ser.) O tempo corre como tem que correr. O tempo leva o que tiver que levar. O tempo é senhor de si.
    Mas se tudo acontecesse novamente, novamente eu não acreditaria num tempo amenizador; juntaria todas as tristezas passadas numa colcha de retalhos, que é quase verdade que a “tristeza não tem fim, felicidade sim.”

segunda-feira, 2 de maio de 2011

de repente

Maria o amou desde o instante que o viu numa festa na casa da amiga jornalista: sorriso aberto, barba, camisa de flanela xadrez verde, o copo de vodka na mão. Já ele, não se lembra quase de nada. Bem, nunca se apaixonou, não era ligado em coisas de detalhes e tal. E lembrar-se de muitas coisas era demais para a primeira paixão. O que ele lembrava apenas era que os olhos dela penetraram nos seus.
    Dormiram juntos e no dia seguinte Maria já havia se mudado para casa dele. Ela se mudou por que a casa dele era maior e os gatos já eram acostumados com o cheiro dali. Ela trouxe seu pé de café, o pé de comigo-ninguém-pode, o relógio de vinil, a coleção de Mário Quintana. Organizou tudo para que ali não fosse mais a casa dele e sim “a nossa casa”.
    Na semana seguinte ele dormiu no sofá depois que ela bateu o pé dizendo que ele tinha olhado para a mulher da mesa ao lado no bar.
    No mês seguinte ela viajou para a casa dos pais no interior do estado, só uns dias, uma semana. Quando voltou o pé de café estava morto de tão seco de falta de água. Ela esbravejou. Jogou nele o que estava ao seu alcance, quebrou quase muita coisa. A maior confusão. E de noite fizeram amor no tapete da sala.
    Era quinta-feira e Maria acordou cedo, como de costume. Abraçou-se a ele e ali ficou até ele acordar. Ele abriu os olhos devagar com uma vontade de não acordar e beijou Maria como um bom-dia. Ela sorriu e disse que estava indo embora para sempre. Ele passou a mão em seus cabelos emaranhados e sorriu de volta; fechou os olhos para dormir novamente.
    À noite, eles esperavam o sono chegar, cada um em sua casa: ela com vinho, ele com café. Sem saudades, sem remorsos, sem. Que tudo que chega de repente, repentinamente também pode partir.

sábado, 30 de abril de 2011

um pouco dia

Quando ele não sabia, ela soltou sua mão, inesperada, sem olhar para trás. Sem tristeza nem alegria, a indiferença tão temida e nunca ainda sentida. Ele não sentiu nada, jura que não sentirá. Quando as horas passarem, quando a noite cair e a cama vazia esfriar: ele irá sentir. Quando ele escureceu, ela desapareceu, de seus olhos negros, de sua pele negra. O ar pesado.
    Ela cheia de si, ele inconstante; ele cheio de amor.
    Quando ele se perdeu, ela quis se perder dele.
    E a cama não parece tão mais quente como a tarde.

terça-feira, 19 de abril de 2011

[des]acreditar

Eu me perdi, e perder ainda não foi caminho, Clarice. Talvez ele esteja longe ainda, ou hoje pareceu mais perto. Custo a acreditar em você, Clarice. Eu quero acreditar. Talvez eu acredite.
    Eu não acredito direito, mas meio desacredito.
   Olha essas paredes: já me enjoaram. O céu deveria parecer diferente, essas nuvens que parecem cinza deveriam desobstruir o sol, e levar esse ar estagnado junto. Minhas mãos não deveriam estar aqui, meus pés sobre outro chão, não deveria escutar as mesmas vozes. Não deveria estar dormindo tão só.
    Eu não acredito e não desacredito.
    Apenas parado. Cansado dos ossos, da pele, cansado de estar e não ser.
    Eu não desacredito e não acredito.

XII - das utopias

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!
Espelho Mágico – 1951
Mário Quintana

quinta-feira, 14 de abril de 2011

rosa

Dona Rosa esperava na rodoviária o ônibus com bilhete na mão, malas no chão, confeito de mel na boca. Ela vinha à cidade visitar a filha, mês em mês, mas não gostava de deixar sua casa por nada. Não se sentia bem na casa dos outros, mesmo que fosse a da sua filha.
    Há dois dias Dona Rosa era viúva: quando seu marido caiu-lhe aos pés sem mais nem menos e que lhe disseram: “foi cousa de coração”. Que importa! Dona Rosa agora era só ela e não sabia fazer isso.
    Foi criada para ser esposa e mãe, para amar e cuidar e amar e procriar e criar e amar e cuidar e amar. E Dona Rosa fez o seu papel fielmente como acreditava ser, era o seu estímulo de que “todos tem uma missão a cumprir nessa vida”.
    Amou o marido, teve oito filhos, os criou como mãe exemplar que foi. Cuidou da casa, cuidou da vida de todos ali, nunca reclamou dos momentos ruins no casamento, como das cachaças do seu marido quando esse chegava caindo pelas tabelas aos sábados: sempre o acolhia à cama. Dona Rosa fez o papel de mulher que lhe foi designado. E agora viúva, e os filhos criados, casados, de vidas próprias (que quase nem cabiam mais a pouca vida de Dona Rosa).
    A volta para casa foi penosa, pois ela já se sentia vã, porque seu papel na vida havia acabado. O caminho pareceu mais curto, como se o mundo e o tempo lhe apressassem para o seu destino vago. E toda a estrada passou tão depressa. Que ela nem percebeu os pés-de-cajá carregados da fruta, alaranjando o mundo.
    E lá estava ela, frente ao sítio e a cadeira vazia onde seu marido sempre fumava e olhava o tempo agir no horizonte. Tudo era vago demais. Logo ela que sempre quis ser algo e por assim, desempenhava seu papel minuciosamente. Dona rosa.
    A casa empoeirada, culpa da janela aberta.
   Apanhou a vassoura no quintal pra varrer o piso vermelho. Dona Rosa, que as pernas doíam, sentou-se; e os cigarros de seu marido sobre a mesa a olharam com desdém, que ela nunca gostou que ele fumasse.
    Ela pegou um cigarro acendeu e tragou e respirou como se fumasse desde sempre. Seus olhos eram vívidos. Dona Rosa. O sol entrava pelas frestas dos caibros do teto – que nas chuvas abrigavam as goteiras – iluminou os olhos vívidos e ela ergueu o olhar. E o sol transpassando a fumaça.
   Largou o cigarro no chão meio fumado, ergueu-se altiva e saiu. A casa aberta: saiu. O sol de quatro horas: saiu. Dona Rosa foi ser o que nunca havia sido: sua.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

e veio a realidade

Sonhei demais por um tempo, até que meus sonhos bateram na realidade, num choque violento e inesperado. Alguns arranhões e cortes superficiais como resultados, mas nada que os ferisse gravemente. E é difícil ver os sonhos se machucarem assim, desprotegidos. Parecem se tornar tão frágeis e efêmeros que seria até um pecado sonhá-los de novo. Mas é impossível não sonhá-los. E então volto a sonhar como se fosse a única coisa que verdadeiramente se tem. Agora, não posso deixar a realidade à parte e cometer o mesmo erro. Tenho que me manter sóbrio ao chão.

segunda-feira, 28 de março de 2011

a mulher violentada

Irréversible (2002)
Ela caiu na poça de água da chuva no chão do beco quase escuro. Um poste ainda iluminava as latas de lixo que de tão cheias esparramavam os restos. Seu nariz sangrava e ela bebia o próprio sangue, e as próprias lágrimas. Ela estava suja da lama formada pela chuva. Estava suja das mãos do homem insano que lhe bateu para que ela parasse de chorar e suplicar enquanto ele rasgava sua roupa com a violência de um cão. Suja daquelas mãos fedidas a cigarro barato que passeou entre seus cabelos loiros e deslizou pela sua face numa tentativa de carinho. Todo o corpo doído, marcado – vermelho – arranhado. Sujo do prazer final do homem.
    Ela nunca havia entregado seu corpo nem seu coração a ninguém. E agora nada parecia ser mais seu. E agora, via apenas o lixo de um beco quase escuro e o chão molhado da chuva. Apesar da vontade de gritar toda aquela dor que sentia, não conseguia. Não tinha força nem para se levantar do chão imundo.
    Sua alma estava mais ferida. Ela que acreditou naquele homem, que o amou. Ele que disse a amar só para tê-la em suas mãos, ao seu alcance. Ele aproveitou da condição de homem amado para roubar da mulher sua carne ainda intocada.
    Ela caída sem forças; pensou no amor. Pensou que nunca esqueceria aquela dor carnal e cortante. Seu coração violentado, seu corpo violado.

domingo, 20 de março de 2011

sobre príncipes

Branca de Neve e os Sete Anões (1937)
Nunca realmente parei para pensar sobre príncipes encantados. Achava até que não acreditava nesses homens montados em seus cavalos salvando seus amados de perigosos dragões e bruxas com verrugas no nariz e risadas assustadoras, todos altos, fortes, valentes e destemidos, que até parecem cópias uns dos outros. A perfeição dos mundos fantasiados.
    Mas eis que sim, eu acredito em príncipes encantados. E espero pelo meu. E ainda acredito que todos esperam por eles. Não tão imaginativos como esses das histórias que se ouve, mas perfeitos nos desejos e fantasias silenciosas de cada um.
    Desde que se é pequeno se tem a ideia do príncipe encantado, do homem perfeito para toda a vida, nos mínimos detalhes pensados e fabricados na imaginação. Com o tempo os detalhes vão se perdendo e nem tudo vai sendo “tão importante assim”. Ele não precisa ser mais tão magro como o modelo da revista, nem loiro feito o príncipe inglês, nem tão rico e bonito como o ator da novela. Tornamo-nos menos exigentes, menos seletivos. Com o tempo, às vezes, o príncipe encantado se resume apenas a presença de amor, ao sentimento retribuído e: isso basta.
    Sonhar com o príncipe encantado é de certa forma acreditar naquela felicidade íntima e voraz que parece ser tão ilusória e démodé, mas que está tecida no destino de toda vida.

segunda-feira, 14 de março de 2011

poetas que não sou

    Poetas me encantam, me seduzem e me comem com os dedos. Pela forma como eles cadenciam as palavras num respirar tão doce e forte e ácido, pela forma de se desvencilhar de seus pecados e amores e jogar tudo na nossa cara sem piedade alguma.
    Eu odeio a piedade dos poetas. Odeio piedade nos poetas.
    O poeta não se protege, ostenta os calos e as feridas das mãos e nos fere com seu vômito. Gosto de ser ferido, exaurido, digerido. Gosto dos poetas que me afrontam, das poesias que se instalam em mim. Gosto dos poetas que são poesias, e das poesias que são vidas.
    Não escrevo poesia porque simplesmente não tenho alma de poeta. Sou algo diferente. A minha alma difere.

quinta-feira, 10 de março de 2011

beirando

Ela acordou e o mar beirava seus pés cansados. Ainda era noite, maré cheia, ondas violentas. Seu vestido cor-de-vento molhado. Se a cidade estende-se em luz e as pessoas que na noite se encontram, o mar é escuro de si mesmo.
    Refletido em seus olhos castanhos, aquele mar revolto das horas que ela não podia controlar. Adentrava-se a noite e crescia-se o desconhecido. Da condição de se manter viva não sobrava mais vestígios. Ela inteira despedaçada, e a noite fria. Sargaço enfeitava sua pele.
    O mar acordou e ela beirava suas águas revoltas. Qual noite de engolir vidas incontroláveis: engolia pausadamente aquela vida caída em suas ondas.
    Quem dera o mar a engolisse como ela quer engolir o mar.
    Beira mar.
    Quem dera as águas preenchessem seu corpo de vida.

quarta-feira, 2 de março de 2011

entrelace

O dia chuvoso, quase abafado, e o quarto tomado pela fumaça do Camel; deitado na cama, olhando as estrelas e os planetas e as luas no teto que brilhavam quando era escuro. O pensamento vago, perdido de nem ele mesmo saber onde. O telefone tocou e cortou o silêncio.
   Rodrigo caminhava ao lado do mar quando ligou para Thiago. Sob o sol, sem nuvens, e o mar. Exatos dez anos que se conheciam, que conversaram pela primeira vez. Uma década inteira, e como o tempo passou sem que eles percebessem tanto.   
   Naquela época Thiago estava começando a conhecer o mundo, não sabia de amor, não sabia bem sobre a vida, poucos amigos, não sabia de ¼ do homem que era. Morava com os pais e tinha um sorriso solto, e a inocência febril que pode ser mortal. Ele tinha sonhos, como quase qualquer outro pode ter, sobre ter seu príncipe encantado que o defenderia para toda a vida. Escrevia poemas lindos e coloridos de rimas que mais tarde até o envergonhariam um pouco. Ele exalava algo especial, que partia daquele coração ainda virgem.
   Do outro: Rodrigo vivia numa fase diferente. Era mais velho, morava só, se divertia de si mesmo e dos outros, sabia da dor das mentiras, tinha algumas marcas leves da vida sobre a pele. Gostava de sol, mas o frio lhe era reconfortante.
   Depois da primeira conversa – desde ali que se amaram – depois de outras tantas conversas veio uma noite em que eles se encontraram. E Rodrigo serviu a primeira dose de cachaça que a garganta de Thiago viu, serviu a primeira dose de carinho que a pele e o coração dele puderam sentir. Embriagou-se de amor e de álcool.
   Aquela noite foi apenas aquela.
   Nunca mais se tocaram como ali.
   E o tempo os transformou. Thiago sabia mais sobre a vida, sabia do que as pessoas eram capazes e já trazia certas marcas de guerra tatuadas; ganhou peso, e o sorriso: mais sedutor. Já havia se acostumado ao tom da cachaça, escrevia como poeta e era apaixonante. Ainda esperava pelo príncipe que lhe salvaria das lesmas nas noites de chuvas. Rodrigo ainda ria de si e dos outros, havia emagrecido, as marcas mais cicatrizadas sobre a pele (que não queria dizer que doíam menos), e a necessidade de ajudar quem pudesse. Acreditava nas estrelas e em borras de café. Tinha se acostumado mais com a dor de se viver.
   Durante os anos eles se conheceram melhor, como ninguém mais os conhecia. Viam-se inteiros, sem os disfarces enxergados pelos olhos alheios. E a cumplicidade que existia os faziam viver na vida um do outro quais atores coadjuvantes. Como quando alguém feriu mais uma vez Rodrigo e na noite voraz suas lágrimas caíram sob o colo de Thiago que foi ajudá-lo com a dor. Como quando Thiago achava um pretendente para o posto de príncipe encantado e Rodrigo fazia de tudo para que ninguém o machucasse.
   E no final da ligação Rodrigo perguntou entre os sorrisos: “- porque nós nunca namoramos?” O silêncio de Thiago por alguns segundos já era a resposta: ele não sabia o porquê.
   Talvez eles tivessem medo, ou simplesmente não era para acontecer – coisas de destino. A certeza era de que se eles tivessem namorado não se conheceriam como são, e sim com o mesmo olhar alheio da maioria das pessoas que passaram pela vida deles.
   E Thiago tinha a certeza de que todo aquele sentimento entre eles era o mais perto que ele havia chegado do amor.
para Roberto Torta,

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

cansado

    Sinto um vazio enorme e desolador, de uma solidão imensa, de uma tristeza imensa, de um tudo imenso. O grito preso na garganta: o grito de socorro, mesmo que não sei por qual perigo eu estou passando. O perigo de me perder, de me achar, o perigo de me entender.
     Prendam-me, me torturem até descobrirem o que é isso que se infiltrou em minha pele. E descobrirem como extrair e me salvar.
       É o mar transbordando. É isso.
   É essa solidão que anda me acompanhando e como passarinho, carregando de pouco a pouco e construindo seu ninho. E aí ela cansada repousa em mim. Eu sou fraco e minhas pernas não agüentam o tamanho peso desse espaço vazio. Meus olhos cedem. 
      Só por essas horas: eu cedo.
    Se me aconchegasse em um colo, em um braço, em uns olhos, eu não cederia, porque não estaria tão cansado assim.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

noite apenas

    Contraída ao corpo dele, os olhos fechados sobre o ombro largo de homem vil. As mãos ásperas do homem a seguravam ao encontro do corpo seu. Ela era conduzida: ela vaga, ela nada. Quem dera, ela não estivesse ali, essa noite, nessa vida, esses olhos tão poentes.
     Seu vestido branco – porque gostava de branco, porque era cor de coisa nada – seu vestido branco era furtado pelas cores das luzes do bar.
     Lúcia, despertada do seu olhar inerte pelas palmas de quem assistia os casais dançarem, largou o homem vil e seu ombro escuro. Saiu do bar. Saiu para um céu pouco estrelado, porque a noite quisera esconder-se. Quem de longe percebia isso, pelos poucos bêbados e luzes da rua, e os bares quase mortos de gente. A noite não quisera hoje ser de ninguém.
    Mas Lúcia queria a noite, sem ninguém, sem quem, só a noite e seu mistério errante.
     E alguns pingos de chuva caiam sobre seu rosto de pouca maquiagem que usava para não esconder-se insustentavelmente. Olhou o céu e feriu os olhos de chuva fina que começava a cair; olhos de instante, que eram negros como a escuridão das ruas dessa noite que só quer a si mesma.
     “O que eu sou dessa noite? O que eu sou de mim, senão coisa perdida e seca”, disse ela sentando-se contraída no meio-fio sujo. “Quero apenas as mãos dessa noite me escorrendo em veneno”.
    Lúcia que nunca fora de ninguém – que intimamente nem sua era de verdade, de certeza, de amor – Lúcia queria ser da noite, queria ser a noite perdida nos devaneios de quem a absorve.
     Quando a chuva parou, as ruas pareciam de outra cor.
     O meio-fio abrigava Lúcia que tinha as águas da chuva escorrendo pelos seus pés. A chuva que levava tudo o que ela havia preparado hoje para si: a coragem e o não-pudor de ser noturna, de ser da noite, de não ser sua. Tudo escorria, escorria como coisa que não vale tanto.
     E o homem vil sentou-se ao seu lado, e novamente Lúcia encostou seus olhos descobertos no ombro dele. Lúcia era o próprio mistério e pouco sabia.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

relógio

    Haverão de inventar relógio acoplado ao coração que faça as horas correrem e ‘devagarem’ na necessidade que realmente se precisa. Porque coração é que realmente sabe de tempo. Poder estender uns minutos em horas quase infinitas ou mesmo o contrário: daquela hora indesejável passar como relâmpago – mesmo que se deixe marca, que é tão rápido que se sofre menos.
       Haveria também de dar tempo ao coração, para quando este precisar-se se reconstruir, se adaptar a não-rotina de fins de relacionamentos, a não correspondência de sentimentos. Coração é que sabe de tempo.    
       Coração é que sabe da gente.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

lembrança

    Hoje passeei sobre mim, sobre uma caixa de lembranças que me fizeram sorrir – mesmo algumas tristes.
    Há um ano escrevia meu primeiro texto para o blog, e me lembrei de todo o sentimento e a felicidade que me fez escrevê-lo. Cada detalhe físico e imaginativo daquela manhã, como se fosse um dia tão importante de se lembrar, mas que não me é especial – ao menos que eu saiba. Lembro daquela felicidade boba que foi se despedaçando no caminho de volta para casa. Lembro do chocolate que comprei para presentear o aniversariante do dia e que adoçou as lágrimas que me caíram.
    E nas outras lembranças me vi alegre, e triste, e pasmo, e perdido. Tanta coisa, quase nenhum arrependimento.
    Era como comer tudo aquilo que vomitei um dia, e tudo tinha um gosto de mofo, de coisa antiga. De que tudo passou, e que eu mudei. E que hoje minha felicidade não é tão efêmera.
    E agora eu vomito o vômito comido de mim mesmo.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

felicidade essa

    Tenho uma felicidade espreguiçada, sustentada pelo que ainda não tenho fisicamente, mas que me tange à pele. Felicidade erguida de sonhos ou ilusões. Guardo essa felicidade dentre a carne de mim, para protegê-la como mãe que protege filho; que o mundo pode querer destruí-la, e eu não confio tanto no mundo. Que essa felicidade ainda é lânguida para se sustentar só.
    E preparei todo um coração, todo um corpo como fortaleza para proteger, para acalmar essa explosão de se nascer feliz. Cuidei do que vingou, limpei os menores vestígios, resquícios do tempo que não valem bem à pena. E pronto: estou.
    É hora de nutrir o que se quer comer, e deixar morrer o que se quer matar, e de deixar descansar o que não é de agora e anda esgotado (ah, às vezes eu me canso como se estivesse eternamente vivo).

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

a coisa

    Coisa que me nasce como sabor de coisa já nascida. Talvez seja coisa renovada. De novos ares, perspectivas, ilusões. Digo, coisa não menos perigosa que antes fora coisa antes, coisa verdadeira. Coisa de se arriscar mais, por ser mais distante e inacreditável à pensamentos enraizados.
    Não se diz nome – não pelos ares poluídos – para não se perder o instante inteiro.  Mas mesmo assim se diz, porque se precisa do momento do som. Precisa-se ver a coisa entrar pelos olhos e dançar pelas veias. Há quem agüente nascimento de coisa tão.
    Há quem se perca nos caminhos friáveis. Eu sou indignado diante da coisa.
    Coisa: amor.