quinta-feira, 6 de novembro de 2014

pacto

furei os olhos
como se fizesse um pacto
havia teu nome e teu sangue.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

noite nº 17

amarre-me as mãos
vende meus olhos
dispa-me a pele
- minha pele crua.

prove o suor e meus medos
os anseios em cada espasmo
e minha saliva ácida
crave unhas e dentes
tudo violentamente
tatue vermelhos e roxos
na minha carne branca
e depois: coma!
devore,
devore,
até perder os dentes
até que não sobre nada
nem a fome
nem a carcaça.
para Miguel

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

noite nº 16

o contraste do meu corpo
e de toda essa noite fria
entre a palidez da pele
e a língua-viva
vermelha e quente e corrosiva
derretendo as palavras não ditas
em forma de saliva
fazendo de mim lugar de tua escrita
onde os versos e os não versos
me comem.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

noite nº 15

faltam teus dedos
nos meus pelos.
faltam teus pelos
         entre minhas pernas
         dentro da madrugada
         emaranhando-se nos meus cabelos.

falta tua gota
na minha língua.
faltam teus dentes
na minha carne:
rasgando
         – selvagem.

terça-feira, 22 de abril de 2014

carta para Helena

Eu vi uma nuvem hoje, Helena. Parecia uma construção antiga, arquitetura grega, imperiosa no espaço do céu. E então me lembrei de você, como sempre lembro ao ver qualquer coisa relacionada à Grécia. Mas lembrei também porque havia o céu.
Não sei ao certo, minha querida, quando as coisas começaram. Não me lembro bem nem quando começaram a mudar. Me lembro de como ríamos e dos apelidos e das mensagens que enviávamos um ao outro. Ainda tenho todas guardadas, infelizmente. Porque em momentos como esse em que minha cabeça duvida, elas me são provas concretas do que eu não queria.
Você deixou passar o tempo em que gostava de me acompanhar por ai, em que me pedia para ficar para sempre, quando não fazia questão do mundo. Havia segredos que me eram contados ao pé do ouvido, assim como os não-segredos. Também não posso dizer que continuei o mesmo. Fiquei mais sólido, inseguro, por vezes escuro ao ponto de não saber de mim. E quando aquela paz bruta que nos consumia começou a evaporar-se, vieram também as guerras daquelas que te destroem pouco a pouco e sempre – sempre – deixam cinzas.
Da primeira vez que pensei em esquecer o que éramos acho que enlouqueci um pouco, uma culpa cortante passou a bisbilhotar os momentos de silêncio do meu pensamento. Como eu pude pensar em desistir de tudo o que era?! Da segunda vez e depois já não parecia estranho, era como pensar em te amar. E quando se começa a imergir, dificilmente consegue-se respirar novamente.
Hoje eu fui embora. Aproveitei que a noite vai ser fria e chuvosa para poder ir sem arrependimentos. Cansei de me esforçar para te compreender ou para me fazer entender, cansei de hastear bandeira branca e do silêncio nas refeições. Cansei de ver teus lados mais obscuros. Conseguiria fazer uma lista imensa de tudo o que estou estafado e sei que você assinaria embaixo. Você só não teve coragem para partir.
Espero que quando o acaso vier a cruzar novamente nossos caminhos em um bar qualquer ou nas esquinas das ruas que adoramos vagar sem destino, possamos sorrir e contar as novidades sem desconfortos, falsidades ou estranheza. Porque eu amo teu sorriso sincero. Aliás, eu te amo Helena. Adeus. 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

outro

não sou a pessoa que quero ser
nem o poeta que quis ser
cada dia me conheço menos
despoetizo,
me assusto com o começo do dia
minha cama intacta de sonhos.
a distância entre um dia aumenta
porque o corpo segue para o futuro
mas as ancoras me mantém agora.

sexta-feira, 7 de março de 2014

silenciado

um poço vazio
rio em tempo de seca
intermitente
sob sol de verão
terra rachada
onde não há flor que nasça
e da esperança
resta a carcaça.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

congestionamento
nas sinapses criativas:
- caos!

metafórico é o vazio nebuloso do silêncio.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

não há vento
onde não se assopre,
não há amarras
onde se desata,
o tempo faz perderem-se palavras
e nem todo voo é liberdade.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

céu-pássaro

vez em quando
o pássaro pousa no batente
canta algo azul
e logo, de novo, voa
deixando ali a janela
fria e presa a parede
vendo acontecer o mundo
todo do lado de fora
enquanto, às vezes, por dentro
soa escuro.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

adornar

a gente descansa tristeza numa linha
pra enfeitar com rima quebrada
e tentar fazê-la mais bonita
e menos fatal.

e só quem sabe das entrelinhas
sente o gosto de cada vírgula
e vê por entre os adornos
que tudo é cru