quinta-feira, 14 de abril de 2011

rosa

Dona Rosa esperava na rodoviária o ônibus com bilhete na mão, malas no chão, confeito de mel na boca. Ela vinha à cidade visitar a filha, mês em mês, mas não gostava de deixar sua casa por nada. Não se sentia bem na casa dos outros, mesmo que fosse a da sua filha.
    Há dois dias Dona Rosa era viúva: quando seu marido caiu-lhe aos pés sem mais nem menos e que lhe disseram: “foi cousa de coração”. Que importa! Dona Rosa agora era só ela e não sabia fazer isso.
    Foi criada para ser esposa e mãe, para amar e cuidar e amar e procriar e criar e amar e cuidar e amar. E Dona Rosa fez o seu papel fielmente como acreditava ser, era o seu estímulo de que “todos tem uma missão a cumprir nessa vida”.
    Amou o marido, teve oito filhos, os criou como mãe exemplar que foi. Cuidou da casa, cuidou da vida de todos ali, nunca reclamou dos momentos ruins no casamento, como das cachaças do seu marido quando esse chegava caindo pelas tabelas aos sábados: sempre o acolhia à cama. Dona Rosa fez o papel de mulher que lhe foi designado. E agora viúva, e os filhos criados, casados, de vidas próprias (que quase nem cabiam mais a pouca vida de Dona Rosa).
    A volta para casa foi penosa, pois ela já se sentia vã, porque seu papel na vida havia acabado. O caminho pareceu mais curto, como se o mundo e o tempo lhe apressassem para o seu destino vago. E toda a estrada passou tão depressa. Que ela nem percebeu os pés-de-cajá carregados da fruta, alaranjando o mundo.
    E lá estava ela, frente ao sítio e a cadeira vazia onde seu marido sempre fumava e olhava o tempo agir no horizonte. Tudo era vago demais. Logo ela que sempre quis ser algo e por assim, desempenhava seu papel minuciosamente. Dona rosa.
    A casa empoeirada, culpa da janela aberta.
   Apanhou a vassoura no quintal pra varrer o piso vermelho. Dona Rosa, que as pernas doíam, sentou-se; e os cigarros de seu marido sobre a mesa a olharam com desdém, que ela nunca gostou que ele fumasse.
    Ela pegou um cigarro acendeu e tragou e respirou como se fumasse desde sempre. Seus olhos eram vívidos. Dona Rosa. O sol entrava pelas frestas dos caibros do teto – que nas chuvas abrigavam as goteiras – iluminou os olhos vívidos e ela ergueu o olhar. E o sol transpassando a fumaça.
   Largou o cigarro no chão meio fumado, ergueu-se altiva e saiu. A casa aberta: saiu. O sol de quatro horas: saiu. Dona Rosa foi ser o que nunca havia sido: sua.

Um comentário:

  1. impressão minha ou já li esse conto? rs

    que sejamos todos assim: nossos.

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